"Creio", disse um dia "que uma folha ou um pequeno verme no caminho falam e significam mais do que todos os livros de uma biblioteca inteira. Algumas vezes, escrevo uma letra grega qualquer, um theta ou ômega e, quando entorto um pouco a pena, a letra se agita transformando-se em peixe; lembra frescura e umidade, o oceano de Homero e a água sobre a qual andou Pedro; a letra muda-se em ave, sacode a cauda, arrepia as penas, estufa o peito, ri-se e levanta vôo. Então, Narciso, você dá atenção a essa letras? Uma coisa eu lhe digo: foi com elas que Deus escreveu o mundo."
"Dou muita atenção a elas," repondeu Narciso, triste. "São letra mágicas e com elas se pode expulsar demônios. Entretando, é claro, elas não se adaptam as práticas das ciências. O espírito ama o sólido, aquilo que está feito; quer poder confiar nos seus sinais; ama o que é, e não o que virá-a-ser; o verdadeiro e não o possível. Não adimite que um ômega se transforme em cobra ou em ave. O espírito não pode viver na natureza e sim contra ela, somente como seu adversário. Então, Goldmund, agora você compreende que jamais será um sábio?"
"...contudo, hoje em dia, eu próprio não sei mais o que realmente quero e desejo. Antes, tudo era simples; simples como as letras da cartilha. Agora, nada mais é fácil, nem mesmo as letras. Tudo tem muitos significados e faces. Ignoro o que vai ser de mim; no momento não posso nem sequer pensar nessas coisas."
sexta-feira, 1 de julho de 2011
quarta-feira, 29 de junho de 2011
trechos de L. Ferlinghetti
'Olhei para minha terra natal
e não vi anjo nenhum.
Gosto daqui
e nem penso voltar
para donde vim.
Tenho perambulado solitário
como as multidões
Já tentei o silêncio
o exílio e a astúcia.
Útero ulterior
estou farto dele.
Tenho viajado.
Ouvi Debussy
filtrado por um lençol.
Ouvi pássaros
ressoando como sinos.
Tenho visto estátuas de heróis
nos entrocamentos.
Quem diria
a alma também tem crises.
Eu sofri
um pouco.
Não sofri em público.
Sou jovem demais para morrer.
Eu tenho planos para o futuro.'
e não vi anjo nenhum.
Gosto daqui
e nem penso voltar
para donde vim.
Tenho perambulado solitário
como as multidões
Já tentei o silêncio
o exílio e a astúcia.
Útero ulterior
estou farto dele.
Tenho viajado.
Ouvi Debussy
filtrado por um lençol.
Ouvi pássaros
ressoando como sinos.
Tenho visto estátuas de heróis
nos entrocamentos.
Quem diria
a alma também tem crises.
Eu sofri
um pouco.
Não sofri em público.
Sou jovem demais para morrer.
Eu tenho planos para o futuro.'
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Sussurros de um caminho bem iluminado
''Walking, stumbling on these shadowfeet
Toward home, a land that I've never seen
I am changing
Less and less asleep
Made of different stuff than when I began
And I have sensed it all along
Fast approaching is the day
Toward home, a land that I've never seen
I am changing
Less and less asleep
Made of different stuff than when I began
And I have sensed it all along
Fast approaching is the day
...
I'll be found in you
You make all things new...''
''''
Andando, tropeçando nessas pegadas
A caminho de casa, um lugar que eu nunca vi;
Estou mudando
Cada vez menos sonolenta
Feita de coisas diferentes de quando comecei
E tenho tido essa sensação o tempo todo
O dia aproxima-se rapidamente.
...
Estarei firme em ti.
Tu fazes novas todas as coisas.''
quinta-feira, 23 de junho de 2011
domingo, 19 de junho de 2011
A Dança - Pablo Neruda
Não te amo como se fosses a rosa de sal, topázio
Ou flechas de cravos que propagam o fogo:
Te amo como se amam certas coisas obscuras,
Secretamente, entre a sombra e a alma.
Te amo como a planta que não floresce e leva
Dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
E graças a teu amor vive escuro em meu corpo
O apertado aroma que ascendeu da terra.
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
Te amo assim diretamente sem problemas nem orgulho:
Assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
Senão assim deste modo que não sou nem és,
Tão perto que tua mão sobre o meu peito é minha,
Tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
Antes de amar-te, amor, nada era meu:
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se dependiam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado, decaído,
Tudo era inalianavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono. sábado, 18 de junho de 2011
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Lua adversa - Cecília Meireles (achado de Sr Jack)
Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
quarta-feira, 15 de junho de 2011
-Mário Quintana
E quando minha alma
estraçalhada a todo instante pelos telefones
fugir desesperada
me deixará aqui, ouvindo o que todos ouvem,
bebendo o que todos bebem,
comendo o que todos comem.
A estes, a falta de alma não incomoda.
(Desconfio até que minha pobre alma fora destinada ao habitante de outro mundo).
-Mário Quintana
estraçalhada a todo instante pelos telefones
fugir desesperada
me deixará aqui, ouvindo o que todos ouvem,
bebendo o que todos bebem,
comendo o que todos comem.
A estes, a falta de alma não incomoda.
(Desconfio até que minha pobre alma fora destinada ao habitante de outro mundo).
-Mário Quintana
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