''O errado é esse, sentado a mesa, fraco aprendiz de desespero.''
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segunda-feira, 22 de agosto de 2011
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Solilóquio do Caladinho - Carlos Drummond de Andrade
''Eu não sei o que diga
se me falam na rua.
Não estou preparado
para conversa-no-ar.
Não sei fazer visita
e dizer as amenas
frases que a gente
traz no bolso da calça.
A mentira é difícil
e não por ser mentira:
porque exige da gente
a arte de inventar.
A alegria é difícil
de se manifestar,
não por ser alegria.
Porque é forte demais.
O sofrimento é fácil
de se exigir na face.
Tudo dói, tudo queima
sem fósforo aparente.
Os parentes me falam
uma língua só deles.
Eu entendo a linguagem
das pedaras da família.
Tudo é mais complicado
se se tenta explicar.
Um gato me fitou,
percebi tudo: nada!"
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Os Ombros Suportam O Mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade
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