domingo, 24 de julho de 2011

Olhos Parados - Manuel de Barros

Ah, ouvir mazurcas de Chopin num velho bar, domingo de manhã!
Depois sair pelas ruas, entrar pelos jardins e falar com as crianças.
Olhar as flores, ver os bondes passarem cheio de gente.
E, encostado no rosto das casas, sorrir...

Saber que o céu está lá em cima.
Saber que os olhos estão perfeitos e que as mãos estão perfeitas.
Saber que os ouvidos estão perfeito. Passar pela igreja.
Ver as pessoas rindo. Ver os namorados cheios de ilusões.

Sair andando à toa entre plantas e animais.
Ver as árvores verdes do jardim. Lembrar das horas apagadas.
Por toda parte sentir o segredo das coisas vivas.
Entrar por caminhos ignorados, sair por caminhos ignorados.

Ver gente diferente de nós nas janelas das casas, nas calçadas, nas quitandas.
Ver gente conversando na esquina, falando coisas ruidosas.
Ver gente discutindo comércio, futebol e contando anedotas.
Ver homens esquecidos da vida, enchendo as praças, enchendo as travessas.

Olhar, reparar tudo em volta, sem a menor intenção de poesia.
Girar os braços, respirar ar fresco, lembrar dos parentes.
Lembrar da casa da gente, das irmãs, dos irmãos e dos pais da gente.
Lembrar que estão longe e ter saudade deles...

Lembrar da cidade onde nasceu, com inocência e rir sozinho.
Rir de coisas passadas. Ter saudade da pureza.
Lembrar de musicas, de bailes, de namorados que a gente já teve.
Lembrar de lugares que a gente já andou e de coisas que a gente já viu.

Lembrar de viagens que a gente já fez e de amigos que ficaram longe.
Lembrar dos amigos que estão próximos e das conversas com eles.
Saber que a gente tem amigos de fato!
Tirar uma folha da árvore, ir mastigando, sentir os ventos pelo rosto...

Sentir o sol. Gostar de ver as coisas todas.
Gostar de estar ali caminhando. Gostar de estar assim esquecido.
Gostar desse momento. Gostar dessa emoção tão cheia de riquezas íntimas.
Pensar nos livros que a gente leu, nas alegrias do livros lidos.

Pensar nas horas vagas, nas horas passadas lendo as poesias de Anto.
Lembrar os poetas e a vida deles muito triste.
Imaginar a cara deles como de anjos. Pensar em Rimbaud,
Na sua fuga, na sua adolescencia, nos seus cabelos cor de ouro.

Nao ter ideia de voltar pra casa. Lembrar que a gente, afinal de contas,
Esta vivendo muito bem e eh uma criatura ate feliz. Ficar admirado.
Descobrir que nao nos falta nada. Dar um suspiro bom de alivio,
Olhar com ternura a criacao e ver-se pago de tudo.

Descobrir que, afinal de contas, nao possui nenhuma queixa
E que se esta sem nenhuma tristeza para dizer no momento.
Lembrar que nao se sente fome e os olhos estao perfeitos.
Para falar a verdade, sentir-se quite com a vida.

Lembrar dos amigos. Recordar um por um.
Acompanha-los na vida.
Como estao longe, meu Deus! Um aqui. Outro la, tao distante...
Que fez deste o destino? E daquele?
Quase vai se esquecendo do rosto de um... Tanto tempo!

Ter vontade de escrever para todos os amigos.
Ter vontade de lhes contar a vida ate o momento presente.
Pensar em encontra-los de novo. Pensar em reuni-los em torno de uma mesa,
Uma mesa qualquer, em um lugar qualquer que a gente ainda nao escolheu.

Conversar com todos eles. Rir, cantar, recordar dias idos.
Dar uma olhadela na infancia de cada um. Aquele era magro, Venicio...
Aquele era gordo, Abelardo... Aquele outro era triste.
Ai, nao esquecer jamais deste ultimo, porque era um menino triste.

Como andarao agora? Naturalmente, mais velhos.
Talvez eu nao reconhecerei alguns. Naturalmente, mais senhores de si.

Naqueles, naturalmente, para quem o mundo deve ter sido menos bom.

Pensar que eles ja vem. Abrir os bracos.
Procurar descobrir, no mundo que os envolve,
Alguma voz que tenha acento parecido,
Algum andar que lembre o andar longinquo de alguns deles...

Ah como eh bom a gente ter infancia!
Como eh bom a gente ter nascido em uma pequena cidade banhada por um rio.
Como eh bom a gente ter jogado futebol no Porto de Dona Emilia, no Largo da Matriz,
E se lembrar disso agora que ja tantos anos sao passados.
Como eh bom a gente lembrar de tudo isso. Lembrar dos jogos a beira do rio,
Das lavandeiras, dos pescadores, dos meninos do Porto
Como eh bom a gente ter tido infancia para poder lembrar-se dela
E trazer uma saudade muito esquisita no coracao.

Como eh bom a gente ter deixado a pequena terra em que a gente nasceu
E ter fugido para uma cidade maior, para conhecer outras vidas.
Como eh bom a gente chegar a este ponto e olhar em torno
E se sentir maior e mais orgulhoso porque ja conheceu outras vidas...

Como eh bom se lembrar da viagem, dos primeiros dias na cidade,
Da primeira vez que olhou o mar, da impressao de atordoamento.
Como eh bom olhar para aquelas bandas e depois comparar.
Ver que esta tao diferente, e que ja sabe tantas novidades...
Como eh bom ter vindo de tao longe, estar agora caminhando
Pensando e respirando no meio de pessoas desconhecidas
Como eh bom achar o mundo esquisito por isso, muito esquisito mesmo.
E depois sorrir levemente para ele com seus misterios...

Que coisa maravilhosa, exclamar. Que mundo maravilhoso, exclamar.
Como tudo eh belo e tao cheio de encantos!
Olhar para todos os lados, olhar para as coisas mais pequenas,
E descobrir em todas uma razao de beleza.

Agradecer a Deus, que a gente ainda nao sabe amar direito,
A harmonia que a gente ve, sente e ouve.
A beleza que a gente ve saindo das rosas; a dor saindo das feridas.
Agradecer tanta coisa que a gente nao pode acreditar que esteja acontecendo.

Lembrar de tantas passagens. Fechar os olhos para ver o tempo.
Sentir a claridade do sol, espalmar os dedos, confiar o bigodes,
Lembrar que tinha saido de casa sem destino, que passara por um bar, que ouvira uma mazurca,
E agora estava ali, muito perdidamente lembrando coisas bobas de sua pequena vida.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

cor da madrugada

Eu não concordo
aliás nem gosto muito
de cordas
mas prefiro o laço
simples
que se dá pra respirar melhor
mas também não vou sem corda
pois se não me dão corda
fico no lugar

Ah.. laço cruel!
se estás no pescoço
é sinal de alvoroço
 se está nos pés
ihhh.. já é questão que nem sei...
se é na cabeça
é bonito
é fita de chita
(o meu que se vá lá)

Corda
Cor da madrugada
eu é que gosto do moreno!

Que sirvam-se os dons (eu como)

domingo, 17 de julho de 2011

O peso da Glória - C.S. Lewis

''É evidente, portanto, que a nostalgia de nossa vida inteira, nosso anseio de nos juntar com alguma coisa no universo de que nos sentimos separados agora, de estar do lado de dentro de alguma porta que sempre vimos do lado de fora, não uma simples fantasia neurótica, mas o indicador de nossa real situação. Ser por fim convidados a entrar seria ao mesmo tempo glória e honra muito além de nossos méritos, e a cura dessa velha dor.''

sábado, 16 de julho de 2011

noites de chuva

O verde fica tão mais verde em dias cinzas
assim como ver-te fica tão mais nítido quando nublas!
Findo este dia com um ar cor de tua ires...

segunda-feira, 4 de julho de 2011

trecho de "Narciso e Goldmund" - Herman Hesse (2)

''Ah! tudo era compreensível e contudo triste, embora belo. Ninguém sabia nada. Vivia-se por este mundo afora, ou cavalgava-se pela florestas e muitas coisas nos olhavam de maneira tão desafiadora, com promessas, ou provocando saudades: uma estrela durante a noite, um campânula azul, um lago de um verde como o dos canaviais, o olho de um ser humano ou de uma vaca; às vezes parecia que algo nunca visto, porém longamente desejado, ia de repente acontecer, como se fosse cair um véu diante de todos; depois passava tudo isso. Nada acontecia, o enigma não era decifrado, o encanto secreto não se desfazia; finalmente ficava-se velho, manhoso como o Padre Anselmo, ou então prudente como o Abade Daniel, sempre sem saber nada, esperando e à espreita."

sexta-feira, 1 de julho de 2011

trecho de "Narciso e Goldmund" - Herman Hesse

"Creio", disse um dia "que uma folha ou um pequeno verme no caminho falam e significam mais do que todos os livros de uma biblioteca inteira. Algumas vezes, escrevo uma letra grega qualquer, um theta ou ômega e, quando entorto um pouco a pena, a letra se agita transformando-se em peixe; lembra frescura e umidade, o oceano de Homero e a água sobre a qual andou Pedro; a letra muda-se em ave, sacode a cauda, arrepia as penas, estufa o peito, ri-se e levanta vôo. Então, Narciso, você dá atenção a essa letras? Uma coisa eu lhe digo: foi com elas que Deus escreveu o mundo."
"Dou muita atenção a elas," repondeu Narciso, triste. "São letra mágicas e com elas se pode expulsar demônios. Entretando, é claro, elas não se adaptam as práticas das ciências. O espírito ama o sólido, aquilo que está feito; quer poder confiar nos seus sinais; ama o que é, e não o que virá-a-ser; o verdadeiro e não o possível. Não adimite que um ômega se transforme em cobra ou em ave. O espírito não pode viver na natureza e sim contra ela, somente como seu adversário. Então, Goldmund, agora você compreende que jamais será um sábio?"
"...contudo, hoje em dia, eu próprio não sei mais o que realmente quero e desejo. Antes, tudo era simples; simples como as letras da cartilha. Agora, nada mais é fácil, nem mesmo as letras. Tudo tem muitos significados e faces. Ignoro o que vai ser de mim; no momento não posso nem sequer pensar nessas coisas."