quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Trecho de ''Anjos da Desolação'' - Jack Kerouac

''À noite na escrivaninha da cabana eu vejo meu reflexo na janela preta, um homem de rosto áspero com uma camisa em frangalhos, com a barba por fazer, de testa franzida, labiado, oculado, cabelado, narigado, orelhado, manusado, pescoçado, pomo-adamizado, sobrancelhado, um reflexo com 7000000000000000 anos-luz de escuridão infinita assolado pela luz arbitrária de uma ideia limitada, e mesmo assim tem um brilho no olho e eu canto canções obscenas sobre a lua no becos de Dublin, sobre vodca hoy hoy, e depois a triste canção do México com o sol se pondo por cima das rochas sobre amor, corazón e tequila - a minha escrivaninha está atulhada de papéis, é bonito olhar de olhos meio fechados para o delicado entulho leitoso de papéis empilhados, como um velho sonho com a imagem de papéis, que nem papéis empilhados em cima da mesa de um desenho animado, que nem a cena realista de um velho filme russo, e a lamparina a óleo ensombrencendo alguns pela metade - E olhando para o rosto vermelho do sol e os lábios vermelhos e a barba de uma semana eu penso: 'Precisa coragem pra viver e enfrentar este impasse férreo de morra-seu-trouxa? Nah, no fim das contas não importa''

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Ensaios Fotográficos - Manuel de Barros


Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quatro da manhã.
Ia o Silêncio plea rua carregando o bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando um bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregasa na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakóvski - seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ningué outro poeta no mundo faria roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Trecho "O peso da Glória" de C. S. Lewis

"Ao falar desse desejo por nosso país distante, o qual, agora, já encontramos em nós mesmo, sinto certa timidez. Estou praticamente cometendo uma vulgaridade. Estou tentando romper o inconsolável segredo em cada um de vocês - o misterioso segredo que dói tanto que se vingam dele chamando-o de nomes como Nostalgia, Romantismo e Adolescência. É o segredo que também aguilhoa com doçura tal que, quando em conversa muito íntima, sua menção torna-se iminente, ficamos desajeitados e com vontade de rir de nós mesmo; o segredo que não conseguimos esconder nem dizer, apesar de desejarmos fazer os dois. Não podemos contá-lo porque é um anseio por algo que jamais ocorreu em nossa experiência. Não podemos esconder porque nossa experiência está sempre deixando que ele transpareça, e nós nos traímos como os apaixonados quando se menciona determinado nome. Nosso expediente mais comum é chamá-lo de beleza e nos comportar como se isso resolvesse o assunto. O recurso de Wodsworth foi compará-lo a determinado momentos de seu passado, não teria encontrado a coisa em si, mas apenas a lembrança dela; aquilo de que ele lembrava na verdade seria a própria recordação. Os livros e a música nos quais pensamos ter encontrado beleza nos trairão se confiarmos neles. A beleza não está neles, ela surge por meio deles, e o que veio por meio deles era anseio. Esses elementos - a beleza, a lembrança de nosso passado - são boas figuras daquilo que realmente desejamos; mas, se forem confundidos com o que realmente desejamos, transformam-se em ídolos tolos. Ídolos que ferem o coração de seus adoradores, pois não são o que eles desejam, são tão somente o perfume de uma flor que não encontramos, o eco de uma canção que não ouvimos, notícia de um país distante que não visitamos. Acham que estou tantando inventar um sortilégio? Talvez, mas lembrem-se de seus contos de fadas. Os sortilégios são empregados tanto para quebrar encantamentos como para levar a eles. Tanto vocês como eu precisamos do sortilégio mais forte que se possa encontrar para nos despertar do encantamento dessa mundanidadeque se abateu sobre nós há quase um século. Quase toda nossa formação foi direcionada para silenciar a voz interior reprimida e persistente; quase todas as filosofias contemporâneas foram concebidas para nos convencer de que o bem do homem deve ser encontrado na terra." 


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

"Teologia é Poesia?" - C. S. Lewis

"Acredito no Cristianismo como acredito que o Sol nasceu, não apenas porque o vejo, mas porque por meio dele vejo todo o resto."


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

nós

"Como diferentes instrumentos que tocam com o mesmo ar, mas cada uma a seu modo"