sexta-feira, 1 de julho de 2011

trecho de "Narciso e Goldmund" - Herman Hesse

"Creio", disse um dia "que uma folha ou um pequeno verme no caminho falam e significam mais do que todos os livros de uma biblioteca inteira. Algumas vezes, escrevo uma letra grega qualquer, um theta ou ômega e, quando entorto um pouco a pena, a letra se agita transformando-se em peixe; lembra frescura e umidade, o oceano de Homero e a água sobre a qual andou Pedro; a letra muda-se em ave, sacode a cauda, arrepia as penas, estufa o peito, ri-se e levanta vôo. Então, Narciso, você dá atenção a essa letras? Uma coisa eu lhe digo: foi com elas que Deus escreveu o mundo."
"Dou muita atenção a elas," repondeu Narciso, triste. "São letra mágicas e com elas se pode expulsar demônios. Entretando, é claro, elas não se adaptam as práticas das ciências. O espírito ama o sólido, aquilo que está feito; quer poder confiar nos seus sinais; ama o que é, e não o que virá-a-ser; o verdadeiro e não o possível. Não adimite que um ômega se transforme em cobra ou em ave. O espírito não pode viver na natureza e sim contra ela, somente como seu adversário. Então, Goldmund, agora você compreende que jamais será um sábio?"
"...contudo, hoje em dia, eu próprio não sei mais o que realmente quero e desejo. Antes, tudo era simples; simples como as letras da cartilha. Agora, nada mais é fácil, nem mesmo as letras. Tudo tem muitos significados e faces. Ignoro o que vai ser de mim; no momento não posso nem sequer pensar nessas coisas."

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